quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Parábolas


O MONGE MORDIDO

Um monge e seus discípulos iam por uma estrada e, quando passavam por uma ponte, viram um escorpião sendo arrastado pelas águas. O monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e tomou o bichinho na mão. Quando o trazia para fora do rio o escorpião o picou. Devido à dor, o monje deixou-o cair novamente no rio. Foi então à margem, pegou um ramo de árvore, voltou outra vez a correr pela margem, entrou no rio, resgatou o escorpião e o salvou. Em seguida, juntou-se aos seus discípulos na estrada. Eles haviam assistido à cena e o receberam perplexos e penalizados.
— Mestre, o Senhor deve estar muito doente! Por que foi salvar esse bicho ruim e venenoso? Que se afogasse! Seria um a menos! Veja como ele respondeu à sua ajuda: picou a mão que o salvava! Não merecia sua compaixão!
O monge ouviu tranqüilamente os comentários e respondeu: — Ele agiu conforme sua natureza e eu de acordo com a minha.


A VISÃO DE FUTURO

Era uma vez um escritor que morava numa praia tranqüila, junto a uma colônia de pescadores. Todas as manhãs ele passeava à beira mar para se inspirar, e de tarde ficava em casa, escrevendo.
Um dia, caminhando na praia, ele viu um vulto que parecia dançar. Quando chegou perto, era um jovem pegando na areia as estrelas do mar, uma por uma, e jogando novamente de volta ao oceano.
- Por que você está fazendo isso? - perguntou o escritor.
- Você não vê? - disse o jovem. - A maré está baixa e o sol está brilhando. Elas vão secar no sol e morrer, se ficarem aqui na areia.
- Meu jovem, existem milhares de quilômetros de praia por esse mundo afora, e centenas de milhares de estrelas do mar, espalhadas pelas praias. Que diferença faz? Você joga umas poucas de volta ao oceano. A maioria vai perecer de qualquer forma.
O jovem pegou mais uma estrela na areia, jogou de volta ao oceano, olhou para o escritor e disse:
- Pra essa, eu fiz diferença.
Naquela noite o escritor não conseguiu dormir nem sequer escrever. De manhãzinha foi para a praia, reuniu-se ao jovem e juntos começaram a jogar estrelas do mar de volta ao oceano.
Esperamos que você seja um dos que querem fazer deste universo um lugar melhor devido à sua presença. Assim sendo, aguardo a sua chegada para juntos podermos jogar estrelas do mar de volta ao oceano.


A MULHER PERFEITA

Nasrudin conversava com um amigo, que lhe perguntou:
- Então, mullah, nunca pensaste em casamento?
- Já pensei. Em minha juventude, resolvi conhecer a mulher perfeita. Atravessei o deserto, cheguei a Damasco, e conheci uma mulher espiritualizada e linda; mas ela não sabia nada das coisas do mundo. Continuei a viagem, e fui a Isfahan; lá encontrei uma mulher que conhecia o reino da matéria e do espírito, mas não era uma moça bonita. Então resolvi ir até o Cairo, onde jantei na casa de uma moça bonita, religiosa e conhecedora da realidade material.
- E por que não casaste com ela?
- Ah, meu companheiro! Infelizmente ela também procurava um homem perfeito.






Apólogos

OS CRÍTICOS

Durante o banho, Antínoo foi visto por Minerva, a qual se enamorou tanto de sua beleza que, toda armada como costumava andar, desceu do Olimpo para cortejá-lo. Mas, mostrando acidentalmente seu escudo adornado com a cabeça da Medusa, teve a infelicidade de ver o belo mortal converter-se em pedra quando este a olhou. Imediatamente, subiu até Jove para lhe pedir que o restabelecesse. Porém, antes que isso fosse feito, um Escultor e um Crítico passaram por ali e viram o jovem.
– Este é um Apolo muito ruim – disse o Escultor. – O tronco é estreito demais, e um dos braços é pelo menos meia polegada mais curto do que o outro. O gesto é pouco natural e, pode-se dizer, impossível. Ah, meu amigo, você devia ver minha estátua de Antínoo.
– A meu ver, a figura – disse o crítico – é passavelmente boa, embora bastante etrusca, mas a expressão do rosto é decididamente toscana, e portanto infiel à natureza. Aliás, você leu minha obra “A falácia do aspectual na arte”?


OS DOIS POETAS

Dois poetas disputavam a Maçã da Discórdia e o Osso da Controvérsia, pois estavam famintos.
– Meus filhos – disse Apolo –, repartirei os prêmios entre vocês. Você – disse ao Primeiro Poeta –, excelente em Arte, tome a Maçã. E você – disse ao Segundo Poeta –, em Imaginação, tome o Osso.
– Para a Arte o melhor prêmio! – disse triunfalmente o Primeiro Poeta. E, ao tentar devorar seu prêmio, quebrou todos os dentes. A Maçã era uma obra de Arte.
– Isso mostra o desprezo de nosso Mestre pela mera Arte – disse o Segundo Poeta, sorrindo.
Logo em seguida, tentou morder o Osso, mas seus dentes passaram através dele sem encontrar resistência. Era um Osso imaginário.


A MÁQUINA VOADORA

Um Homem Engenhoso, que tinha construído uma máquina voadora, convidou grande multidão de pessoas para vê-la levantar vôo. Na hora marcada, com tudo pronto, ele ocupou o compartimento e deu partida. A máquina desabou imediatamente sobre a enorme estrutura em que estava apoiada, sumindo de vista sob a terra. O aeronauta teve tempo apenas de saltar fora e escapar.
– Bem – disse –, foi o suficiente para mostrar a correção de meus detalhes. Os defeitos – acrescentou, com uma vista de olhos à ruína de tijolos – são meramente de base e de fundamentos.
Após essa assertiva, as pessoas fizeram uma subscrição para construir uma segunda máquina.

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